O celular tornou-se a extensão de boa parte das funções que necessitamos na vida, como contas bancárias e aplicativos de documentos, sendo um atrativo para a criminalidade, seja em roubos “off-line” (presencial), seja nas fraudes online (internet). E essa sensação de insegurança é traduzida em números: no Brasil, dois aparelhos são roubados ou furtados a cada minuto, segundo dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A boa notícia é que em 2024, informa a entidade, foram roubados 917.748 dispositivos, uma queda 13,4% em comparação ao ano anterior, sendo que a maioria dos casos (79,6%) se deu em vias públicas. Para Emerson Wendt, delegado e idealizador do Digital Investigation Conference Brazil (DICB), evento em sua segunda edição ocorrido em Porto Alegre (RS) sobre segurança digital, o grande desafio está dentro dos próprios produtos.
Crimes através de celulares
Ao Correio do Povo, o especialista reforçou que mais de 70% dos crimes ocorrem através de celulares, com uma quantidade de vítimas online por volta 43% desde 2025, com perfil em torno de 25 anos e gerando prejuízos individuais que ultrapassam R$ 2,5 mil.
Entre os países da América Latina, o Brasil lidera ocorrências de ataques cibernéticos, que envolvem o uso de e-mails e mensagens falsas, destacou Wendt, reforçando a tese de as instituições apoiarem cada vez mais o fomento dos chamados cybercops, policiais com atuação especializada no combate a esses delitos.
Já na opinião de Erivaldo Vieira, mestre em Teoria Econômica pela Universidade Estadual de Campinas e docente na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), além da subtração do smartphone físico, outros problemas mais profundos também se tornam visíveis e prejudicam tanto quanto às vítimas, como o sequestro digital, ou seja, a extorsão baseada em dados pessoais.
“O acesso à galeria de fotos, arquivos e conversas privadas fornece material para chantagem direta. O criminoso exige pagamentos sob a ameaça de divulgar informações íntimas ou corporativas, ampliando o impacto psicológico e reputacional do crime. Essa prática reforça o caráter assimétrico da violência envolvida, na qual o controle da informação se converte em instrumento de coerção econômica”, frisa o professor em seu artigo.
Inovação avança. E a segurança?
A Comissão de Segurança Pública (CSP) do Senado aprovou em fevereiro o PL 494/2025, que insere a subtração do aparelho na lista de furtos qualificados, com pena prevista de quatro a oito anos de reclusão além de multa. Atualmente o crime é considerado furto simples, punido com reclusão de um a quatro anos e multa.
Enquanto esse e outros regramentos tramitam, uma questão ainda permeia: em tempos de dispositivos e tecnologias cada vez mais avançados, por que a segurança digital não segue o mesmo ritmo, especialmente na área corporativa?
Segundo dados do Global Cybersecurity Outlook 2026, publicado pelo World Economic Forum (WEF), 87% dos entrevistados identificaram vulnerabilidades relacionadas à Inteligência Artificial como risco cibernético que mais cresceu em 2025. Muito embora haja essa constatação e as empresas estejam reagindo, a adaptação ainda engatinha: a proporção de organizações que avaliam a segurança de ferramentas de IA passou de 37% em 2025 para 64% em 2026.
Marcelo Sousa, VP de Produto da Certta, hub de verificação no combate a fraudes por meio da IA, o descompasso entre inovação e proteção também desemboca nos crimes digitais, em que os fraudadores passaram a se beneficiar da democratização de tecnologias para escalar ataques mais frequentes, coordenados e difíceis de identificação.
Para o gestor, ao Estadão, a autenticação é uma ferramenta que precisa estar em todas as jornadas digitais, carregando contextos próprios de risco, comportamentos e experiências dos usuários. Mais do que lidar com picos de acessos, por exemplo, o enfrentamento à criminalidade no ambiente digital está em responder a variações súbitas, com combinações inéditas em meio a velocidade com que essas ameaças se propagam.
“Quando falamos em milhares de jornadas diferentes, não é apenas sobre volume, é sobre a necessidade de interpretar sinais e adaptar a verificação a cada interação. Ao substituir camadas rígidas por validações inteligentes e reconfiguráveis, a segurança deixa de ser um obstáculo e passa a operar como um elemento ativo de resiliência”, resume Sousa.


