A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) instaurou em julho último uma sanção contra o Instituto Saúde e Cidadania (Isac), gestora de unidades públicas de saúde em 7 estados brasileiros (Goiás, Rio Grande do Sul, Bahia, Alagoas, Piauí e Tocantins), após um ataque ransomware vazar os dados de ao menos 500 mil pacientes em 2025.
O caso, confirmado pelo próprio instituto, causou o sequestro de 500 mil registros de pacientes. Destes, 78.772 seriam de crianças e adolescentes e 47.921 de idosos. Segundo informações da ANPD, a investigação apura se foram cometidas infrações à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), principalmente em relação a carência de medidas de segurança, técnicas e administrativas aptas a proteger esses dados sensíveis.
Esse é um dos desafios que a saúde enfrenta em relação aos avanços da digitalização de processos. Por um lado, isso trouxe mais agilidade e facilidade em agrupar e consolidar informações, graças a convergência entre hardwares, softwares ao diagnóstico humano. Por outro, o fluxo constante de pessoas, de dados e de incrementos – como a inteligência artificial (IA) e as várias complexidades de casos (físicos e digitais) –, impõem o desafio de garantir ambientes seguros sem comprometer a agilidade necessária ao atendimento.
Cabe ressaltar que isso não se restringe ao território nacional: essa preocupação com o tratamento de dados – que são considerados o “novo ouro” e alvo contante de fraudes e criminalidade – também faz parte das pautas na área de saúde no mundo. Para se ter uma noção, um levantamento da IBM global mostra que o segmento registrou o maior custo médio por incidente entre todos os setores analisados, atingindo a marca de US$ 7,42 milhões por violação de dados.
Para piorar, 70% dos ataques atendidos pela equipe de resposta a incidentes da companhia tiveram como alvo organizações de infraestrutura crítica, grupo no qual os hospitais estão elencados.
Cenário estrutural complexo
Na opinião de Mário Tranche, diretor comercial para Área Privada da Avantia, ao site Segurança Eletrônica, os grandes hospitais têm profundas demandas, a começar pela própria circulação humana nas dependências e a infraestrutura em si. E isso vai de sistemas de gestão de pacientes e veículos da operação hospitalar até picos de aglomeração.
Tais dificuldades perpassam o digital, como a integração de tecnologias existentes e novas a edificações que ao longo de décadas foram instaladas. Tranche salienta ainda que essas estruturas devem priorizar a celeridade, especialmente em situações emergenciais, sem deixar de lado o controle sobre quem circula no local. “Isso exige projetos que integrem diferentes tecnologias e permitam uma gestão inteligente e controlada dos fluxos de pessoas”, afirma o executivo da empresa, especializada em soluções para ambientes críticos, como hospitais e monitoramento.
Inovações tecnológicas, soluções e cuidado ao paciente
Sobre a precisão de diagnósticos, exames e o trabalho da saúde nacional, duas regulações merecem destaque: a Resolução CD/ANPD 15/2024, que determina o prazo de três dias para comunicação de incidentes de segurança, com destaque para tornar públicas as medidas utilizadas para proteger dados pessoais, adotadas antes e após o ocorrido; e a Resolução CFM nº 2.454/2026, do Conselho Federal de Medicina, que regulamenta o IA na prática médica no Brasil, estabelecendo regras de responsabilidade e observando cada serviço médico, “desde que observados os padrões de auditoria, monitoramento e transparência definidos”.
Além dos regramentos, um dos grandes fatores para evitar a exposição imprópria de documentos sigilosos, envolve treinar e capacitar os colaboradores para identificar tentativas de fraudes.
Flavio Cruz, executivo na Cyrex Security, especializada em cibersegurança, frisa que hiperconexão nos hospitais trouxe ganhos inestimáveis à qualidade da assistência, mas, na outra ponta, reforçou a máxima que “quanto maior a conectividade, maior é a superfície de ataque”.
“Um incidente na saúde não representa apenas prejuízo financeiro, pois afeta diretamente o atendimento e coloca vidas em risco. Investir em prevenção, monitoramento contínuo e planos de resposta deixou de ser uma demanda exclusiva da área de TI e passou a ser uma necessidade de governança corporativa”, conclui, ao Saúde Digital News.
Foto: Magnific


